Se alguém olhasse apenas a rotina de Shiro Yamaoka na redação do Tōzai, dificilmente o escolheria para um projeto gastronômico ambicioso. Ele tem fama de jornalista desleixado e pouco motivado. É natural, então, estranhar quando o jornal o coloca à frente do chamado Ultimate Menu — aqui, “Menu Definitivo”, uma tradução editorial, não uma versão brasileira oficial confirmada.
A primeira peça dessa resposta é menos misteriosa do que parece: a escolha veio de um teste de paladar. E há um detalhe que a expressão “Yamaoka foi escolhido” costuma esconder: Yuko Kurita passou junto com ele. A partir daí, a pergunta deixa de ser “quem viu potencial no preguiçoso?” e passa a ser “de onde vem essa capacidade que a rotina de trabalho não mostrava?”.
O Tōzai submeteu seu Departamento de Cultura a um teste de paladar; Yamaoka e Kurita foram aprovados e se tornaram os primeiros responsáveis pelo Ultimate Menu. A postura desinteressada de Yamaoka no emprego não anulava seu paladar e seu vasto conhecimento culinário, ligados em parte à formação recebida no universo de seu pai, Yuzan Kaibara. A rivalidade com Yuzan deu importância pessoal ao projeto depois da seleção; não há evidência de que o parentesco tenha sido o critério da escolha.
A análise a seguir aborda o surgimento do Supreme Menu e a sucessão do projeto em volumes posteriores do mangá.
O jornal testou o paladar — e escolheu duas pessoas
O Ultimate Menu nasce como projeto comemorativo do centenário do Tōzai, não como uma tarefa criada especialmente para Yamaoka. Segundo a apresentação oficial do primeiro volume pela Shogakukan, o Departamento de Cultura inteiro passa por uma prova sensorial. Yamaoka e Kurita são os aprovados. Esse é o mecanismo explícito da seleção.
Kurita importa por mais do que uma correção de nome. Seu próprio paladar excepcional a coloca como responsável da primeira geração ao lado dele. Se o jornal tivesse escolhido Yamaoka secretamente por ser filho de um grande gastrônomo, a prova compartilhada e a aprovação de Kurita ficariam sem explicação. A evidência disponível aponta para competência demonstrada, não favoritismo familiar.
A fama de preguiçoso não mede o que Yamaoka sabe sobre comida
O contraste de Oishinbo funciona porque as duas descrições são verdadeiras. Yamaoka não parece empenhado nas tarefas habituais do jornal, mas tem paladar refinado e enorme repertório gastronômico. A VIZ, em sua apresentação licenciada da obra, também aproxima essas características: pouca iniciativa aparente e conhecimento enciclopédico sobre comida.
Não há poder sobrenatural oculto nessa habilidade. O teste revela uma aptidão humana — perceber diferenças, avaliar ingredientes e preparos, reconhecer qualidade — que não era visível pelo comportamento de escritório. A gente talvez reconheça essa diferença fora da ficção: alguém pode parecer desligado numa função e ser meticuloso quando o assunto exige aquilo que conhece de verdade. Em Yamaoka, porém, a obra não deixa essa especialidade surgir do nada.
Yuzan ajuda a explicar o talento, não a decisão do Tōzai
O primeiro volume já transforma a origem do conhecimento de Yamaoka em parte do mistério. Ao revelar seu passado e o primeiro confronto com Yuzan Kaibara, seu pai, a história conecta aquele repertório excepcional a uma formação anterior ao jornal. Material oficial licenciado da Bandai Namco é ainda mais direto ao atribuir parte importante do conhecimento e talento gastronômicos de Shiro à influência de Yuzan.
É uma conexão delicada: Yamaoka rompeu com o pai e guarda ressentimento por como entende que ele tratou a mãe e a família. O conhecimento, contudo, não desaparece com a ruptura. É justamente essa convivência de rejeição e herança que torna o personagem mais interessante do que a ideia simples de um “gênio escondido”. A fonte não autoriza dizer que seu paladar veio geneticamente de Yuzan; formação, contato e influência são as relações que podemos sustentar.

A disputa com o pai veio depois da escolha
Até aqui, dá para separar duas causas que costumam ser misturadas. O teste explica por que Yamaoka recebeu a função. Yuzan ajuda a entender de onde vinha parte de sua capacidade. A entrada do pai como rival explica outra coisa: por que essa função gradualmente se torna tão pessoal para o filho.
A sinopse oficial da Shin-Ei Animation explicita essa mudança na adaptação para anime: Yamaoka inicialmente menospreza o projeto, mas a hostilidade e a competição com Yuzan o fazem se dedicar cada vez mais ao Ultimate Menu. É uma formulação da versão animada; não precisamos atribuir as mesmas palavras diretamente ao mangá. No mangá, o marco institucional é posterior: no volume 15, o jornal Teito anuncia o Supreme Menu — “Menu Supremo”, também tradução editorial — sob a direção de Yuzan. Depois, os dois projetos passam a ser confrontados.
Essa ordem corrige a interpretação inicial. O Ultimate já existia quando o Supreme surgiu. A rivalidade não é a razão comprovada para o Tōzai ter escolhido Yamaoka; ela amplia as consequências da escolha. A mesa deixa de ser apenas a bancada de um projeto do jornal e passa a carregar, também, a relação difícil entre pai e filho.

A preguiça pode ser lida como defesa? Só como interpretação
É tentador ligar a apatia de Yamaoka diretamente à dor familiar: ele rejeitaria o universo que associa ao pai e, por isso, pareceria desinteressado em trabalhar. A leitura tem apoio no contraste entre sua postura cotidiana, sua paixão culinária e o ressentimento por Yuzan. Mas o dossiê não encontrou uma declaração canônica dizendo que “a preguiça foi causada pelo trauma”. Tratar essa hipótese como diagnóstico apagaria um limite importante.
Outra interpretação possível é que o Ultimate Menu lhe dá uma maneira de usar o conhecimento recebido sem simplesmente repetir o pai. A longa disputa sustenta essa leitura literária, mas não há afirmação explícita de que Yamaoka tenha aceitado o projeto com esse objetivo consciente. O que está confirmado é mais simples e já bastante rico: ele sabia avaliar comida, foi selecionado com Kurita e viu a missão mudar de sentido quando Yuzan entrou no outro lado da mesa.
Um sucessor mostra que Yamaoka era o primeiro responsável, não o único possível
Uma informação dos volumes posteriores impede transformar a escolha inicial em destino inevitável. No volume 102, o projeto caminha para ser transferido a Shūichi Tobisawa. No volume 103, a Shogakukan apresenta o confronto dos responsáveis da segunda geração de Ultimate e Supreme. A própria editora classifica Yamaoka e Kurita como a primeira geração do Ultimate Menu.
Isso não diminui o talento de Yamaoka. Dá a ele um lugar mais preciso na história: foi o homem que, ao lado de Kurita, demonstrou a capacidade necessária para inaugurar aquela fase do projeto. Seu passado com Yuzan explica parte do talento; a rivalidade posterior explica a intensidade adquirida pela tarefa. Nenhum dos dois fatos substitui o teste como resposta à seleção inicial.
Talvez seja por isso que a figura do “preguiçoso” ainda prenda tanto a atenção. A primeira impressão não estava inteiramente errada — ele realmente parecia desinteressado pelo trabalho comum. Estava incompleta. Quando Oishinbo põe Yamaoka diante da comida, vemos uma pessoa mais capaz e mais dividida do que a rotina da redação deixava perceber.
Fontes canônicas e editoriais consultadas
- Tetsu Kariya e Akira Hanasaki, Oishinbo — mangá original; apresentações oficiais da Shogakukan para os volumes 1, 15, 102 e 103.
- Shogakukan — página oficial de personagens, com a classificação dos responsáveis da primeira e segunda gerações do Ultimate Menu.
- Bandai Namco, material licenciado de Oishinbo DS — influência de Yuzan sobre o conhecimento gastronômico de Yamaoka.
- Shin-Ei Animation — apresentação oficial do anime clássico; a motivação descrita ali é atribuída à adaptação.
- VIZ Media — apresentação oficial de Oishinbo e terminologia inglesa “Ultimate Menu” e “Supreme Menu”.


